Praça Venâncio Neiva. Estátua de Álvaro Lopes Machado. Praça Aristides Lobo. Avenida Epitácio Pessoa. Avenida Monsenhor Walfredo Leal. Locais reais. Batizados com nomes de homens, brancos, ricos, coronéis de seus tempos. Poderosos, antes de tudo. Locais espalhados pela cidade de João Pessoa, a capital da Paraíba, que aliás é outro personagem cujo perfil era semelhante ao dos demais já descritos.

Mas, afinal, o que esses homens têm em comum, além do fato óbvio de serem paraibanos que batizam locais públicos de suas terras? Pois em alguma medida, com distintos níveis de influência e poder, ao longo de mais de quatro décadas eles foram protagonistas do processo de fortalecimento das instituições republicanas e da própria ideia de República no Estado. Um processo que nem de longe foi estático. Um processo que se iniciou bem antes, que se arrastou para bem depois, mas que tem como marco principal a Proclamação da República de 15 de novembro de 1889, realizada exatamente 130 anos atrás.

Um período extremamente conturbado da história política brasileira. Na essência, um golpe de estado organizado pelos militares da época, que destituiu o imperador dom Pedro II e promoveu uma mudança política através da força. E que, na Paraíba, teve na força dos coronéis locais algo muito mais decisivo do que qualquer tipo de instituição recém-criada.

“Foi um tempo de práticas quase feudais, em que as relações patriarcais substituíam as instituições. Valia muito mais o poder local do coronel do que o do governador”, destaca Diego Gomes, professor e historiador paraibano.

O início de tudo

É curioso um detalhe em toda essa história. Em que pese a Paraíba não ter desempenhado nenhum papel central no ato de Proclamação da República, realizado basicamente por militares da região do Rio de Janeiro – a então capital federal -, os ideais republicanos já eram uma realidade no Estado mais de 70 anos antes.

Quase sempre ao lado de Pernambuco, outras vezes contando com a participação de Rio Grande do Norte e Ceará, os paraibanos tentaram em mais de um momento da história pôr fim ao império. Foi assim na Revolução Pernambucana de 1817 (ainda na época do Brasil Colônia), na Confederação do Equador de 1824 e na Revolução Praieira de 1848.

Revolução Pernambucana de 1817: os anseios republicanos no Nordeste datam do início do Século 19 — Foto: Reprodução/TV Globo

Em todas elas, os movimentos de oposição ao governo monárquico, com total influência republicana, foram violentamente suprimidos pelo poder central. E, ironicamente, quando a República virou enfim uma realidade, isso aconteceu sem nenhuma participação paraibana.

“É óbvio que alguns paraibanos participaram do movimento, mas não chega a ser nada muito efetivo”, pondera Diego Gomes.

Ainda assim, não tardou para que os núcleos republicanos existentes no Estado se apropriassem da mudança de regime político e tentassem se beneficiar dessa nova lógica. “O Brasil era a única monarquia da América. Vivia num modelo escravocrata que não condizia com uma lógica burguesa assalariada que ganhava cada vez mais força no mundo à época. A República era questão de tempo e ela foi oficializada em 1889”, prossegue Diego.

A República e a Paraíba

O marechal Deodoro da Fonseca, o militar de alta patente proclamador da República, era um conservador. Um amigo de dom Pedro II que rompeu com o imperador para se tornar o primeiro presidente do Brasil. Seu nome, no entanto, não era consensual. As turbulências seguiriam. A instabilidade prosseguiria por muito tempo ainda. O futuro seria incerto.

Quadro do Marechal Deodoro da Fonseca: proclamador da República que só durou dois anos no poder — Foto: TV Globo/Acervo

Essa realidade foi refletida na Paraíba. O primeiro governador da Paraíba (à época, chamado ainda de presidente de província) foi Venâncio Neiva. De família poderosa. O irmão, por exemplo, foi governador da Bahia. Conservador como Deodoro. Foi nomeado indiretamente. E só seguiu no cargo por dois anos. Quando Deodoro da Fonseca sofreu uma espécie de golpe dentro do golpe e foi destituído e substituído por Floriano Peixoto, Venâncio caiu junto.

Segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc) da Fundação Getúlio Vargas, o primeiro governador deixou o cargo em 27 de novembro de 1891. O Estado permaneceria de certa forma acéfalo, gerido precariamente por uma junta governativa, até que Álvaro Lopes Machado foi nomeado governador. Um liberal, seguindo a linha política de Floriano em âmbito nacional.

“Não havia uma solidez institucional na Paraíba. Grupos armados e paramilitares eram formados a todo o momento. As oligarquias se reuniam constantemente no Clube Astrea, em João Pessoa (na época, ainda chamada de Parahyba). Os combates, a truculência, a repressão eram constantes”, destaca Diego Gomes.

Popularmente conhecida por Pavilhão do Chá, a Praça Venâncio Neiva homenageia o primeiro governador da Paraíba — Foto: Alessandro Potter/Secom-JP

Ainda sobre aqueles primeiros anos de República, o historiador vai dizer que eram tempos do voto de cabresto, das fraudes eleitorais, das eleições decididas nos salões dos clubes, no papo entre coronéis, nas disputas entre oligarquias rivais.

“As instituições não vão se fortalecer durante toda a chamada Primeira República”, pontua Diego Gomes.

De toda forma, pode-se dizer que Álvaro Lopes Machado foi o primeiro grande poderoso do Estado no Brasil republicano. Foi governador, senador, governador de novo, senador uma vez mais. Mesmo quando fora do cargo, era quem de fato mandava nos rumos do Estado. Centralizador, repressor em certos aspectos, mas liberal na economia. Dava as cartas, tomava as decisões, via-as sendo regiamente cumpridas. Não havia espaços para movimentos populares. Não havia voz para os mais pobres.

Mais uma vez recorrendo ao CPDoc da Fundação Getúlio Vargas, Álvaro virou governador com o apoio do monsenhor Walfredo Leal e do republicano histórico João Coelho Gonçalves Lisboa. Mas rapidamente passou a mandar em tudo. Fundou o Partido Republicano da Paraíba e se firmou no poder.

Tinha em Epitácio Pessoa, representante maior de outra oligarquia, o seu principal opositor. Mas tinha força suficiente para permanecer no poder e manter Epitácio longe das decisões.

A ascensão de Epitácio

Até que, em 30 de janeiro de 1912, Álvaro morreu. Seu grupo tentou seguir no poder. Mas Epitácio Pessoa aproveitou o vácuo deixado pela morte de Álvaro e passou a ser a oligarquia dominante do Estado. Uma mudança que faria toda a diferença para a sedimentação da República na Paraíba, 16 anos depois. E isso, graças a um sobrinho seu, João.

Epitácio, pois, nunca foi governador da Paraíba. Mas como deputado federal, senador, ministro do Supremo Tribunal Federal, presidente da República, jurista respeitado no Tribunal Internacional de Haia, mandou no Estado por mais de 20 anos, quando deixou a vida pública no início da década de 1930.

Enquanto líder do grupo político dominante, não modificou muito a lógica informal do processo decisório local, até por estar mais preocupado com questões nacionais que ele também protagonizava. Em terras paraibanas, portanto, o poder tinha mudado de lado, mas a forma de mandar seguia a mesma.

Epitácio Pessoa deu as cartas na política da Paraíba por mais de 20 anos e fez o sobrinho João Pessoa governador em 1928 — Foto: Acervo do Itamaraty

Mas, em 1928, fez o sobrinho João Pessoa governador. E não demorou para as mudanças acontecerem. Era o início da sedimentação de fato da República, quase quatro décadas depois dela ser oficialmente instaurada. “Tem-se que reconhecer que foi João Pessoa quem finalmente adotou uma política de modernização da Paraíba. Com mudanças estruturais pensadas para dinamizar a economia e organizar o fisco do Estado. Aumentar a receita e fortalecer as instituições”, opina o historiador e professor Diego Gomes.

João Pessoa, então, tornou mais rígida a política de cobranças de impostos, taxou a produção algodoeira, fortaleceu regionalmente o Estado. “É claro que ele não fugiu de uma lógica de privilégios para quem detinha o poder. Mas certamente tornou a Paraíba um Estado mais moderno enquanto foi governador”, prosseguiu.

Fez inimigos. Projetou o seu nome nacionalmente. Aliou-se a Getúlio Vargas. Tentou ser vice-presidente. Enfrentou a Revolução de Princesa em seu próprio território. Envolveu-se em polêmicas. Foi assassinado em 1930, ainda enquanto governador. Mas, essas, são outras histórias. O que importa aqui é que deixou como legado as bases solidificadas da República em terras paraibanas.

“João Pessoa representou uma primeira ruptura com as oligarquias centrais”, finalizou Diego.

Carregar Mais Artigos Relacionados
Carregar mais por Gabriel Moura
Carregar mais por Notícias
Comentários estão fechados.

Veja Também

VEJA O CONTRATO: Vice-prefeito de Ouro Velho, Flávio Henrique tenta justificar o injustificável

Circula nas redes sociais um vídeo gravado pelo atual vice-prefeito de Ouro Velho, Flávio …